Confira na entrevista abaixo um pouco mais da carreira e da vida desta artista que vem encantando platéias no Brasil e exterior pela sua personalidade, talento, persistência, dinamismo, criatividade, carisma, voz e composições.
♪ De onde vem esta polivalência, esta vontade de atuar em mais de uma área artística?
Na verdade, não é simplesmente uma vontade, é um desejo muito natural, quase uma necessidade que parece ter nascido comigo e que fiz questão de não reprimir. Minha família traz na história essa polivalência. Meu pai, por exemplo, toca, canta, compõe, escreve, tem grande talento para o desenho e trabalha como dentista. Creio que este histórico familiar, que prossegue de muito antes do meu pai, tenha contribuído bastante para minhas escolhas.
Além disso, vejo a arte como um todo. Vejo as modalidades artísticas se relacionando facilmente. O que seria o teatro sem a música? O que seria a dança sem a música? O que seria o cinema sem a literatura e a fotografia? O que seria do teatro e da literatura sem o desenho? Não me satisfaz compreender apenas uma das partes deste todo.
♪ Em que momento você decidiu seguir o caminho artístico? Encontrou mais apoio ou barreiras por parte da família?
Conscientemente, acredito que esta escolha tenha se dado bem cedo, aos 14 anos, quando comecei a ser remunerada com a música. E, ao longo das experiências que se seguiram, fui confirmando essa escolha a cada vitória, a cada emoção indescritível ao compor uma música, ao comover uma pessoa com meu canto. Acredito na missão de cada ser humano na Terra e sou persistente na caminhada pela conquista dos meus maiores propósitos nesta vida.
Sempre encontrei apoio incondicional em meus familiares, tanto pais e irmã quanto tios, tias e avós. Aliás, todos eles são e sempre foram de fundamental importância na minha trajetória, por todo o incentivo, pelas madrugadas em que meus pais cantavam para eu dormir e pelas tantas outras formas de ajuda, força e ensinamento que encontrei e ainda encontro em casa.
♪ Na sua opinião, por que ainda é tão difícil viver da arte no Brasil?
Falta a consciência cultural tanto no povo quanto nos governantes; a cultura é sempre posta em segundo plano, já que as prioridades são sempre as necessidades básicas, como saúde, alimentação e educação. Só que ficará muito mais fácil quando eles compreenderem que a arte é parte essencial da educação, e que influi incrivelmente na saúde, dentre tantas outras funções.
Mas toda essa desvalorização das artes se deve também a fatores que explicam inclusive nossa situação econômica e política, aquela velha história das origens do país, das colônias de exploração etc. E o Brasil é um país novo se comparado a países como a Itália, França, lugares onde as manifestações artísticas têm muito mais apoio e força. Acontece que cada país tem sua história, seu tempo; o cenário cultural do Brasil está mudando, vem sendo mais apoiado sim, só que toda grande mudança leva um grande tempo. O que me faz mais feliz é saber da nossa gigantesca riqueza de artistas e manifestações culturais.
♪ O músico compositor acaba sendo estimulado a exercitar diversos estilos musicais, ou por compor para outros intérpretes, e ou por encomenda em trabalhos com contextos diferentes do seu. Você encara isso como uma prostituição musical, uma forma de traição ao próprio estilo do artista? Onde entra a inspiração nessas criações que podem não ser a favor das preferências do autor?
É um exercício muito rico. É como um ator que tem que criar em cima de personagens e estilos diferentes. Não acredito em inspiração, mas sim em concentração, dedicação e na força criadora sem limites; ela está sempre ali, pronta para atuar genuinamente, mesmo que sob medidas. Gosto da multiplicidade e acredito que ela está em todos nós, mas nem sempre é fácil aceitá-la e ativá-la.
Já musiquei, por exemplo, letras de crenças que não eram a minha e o fiz com todo o meu carinho e sinceridade musical. Não acho esse exercício difícil quando se têm em mente duas coisas: acordes, notas, desenhos melódicos e palavras, Cada variação desses elementos tem seu sentido, sua energia; e pode haver extrema beleza no mais simples possível.
Além disso, apesar de não ouvir certos estilos musicais, penso que cada um deles têm seu lugar e que existem por razões significativas dentro de um grupo, de uma comunidade, de um período histórico, ou de uma nação e que devem ser respeitados.
♪ Se você tivesse que definir seu estilo musical em uma só palavra, qual seria?
Isto é muito difícil. Não gosto de definições, nem classificações, ainda mais em uma palavra. Rótulos reduzem, podam, descartam automaticamente infinitas possibilidades. Enfim, não sei definir meu estilo em uma palavra.
♪ Na freqüente discussão que opõe o pop ao erudito, qual é a sua posição?
Na minha opinião, eles estão longe de ser opostos. O erudito embasa o popular e o popular está contido no erudito. Conforme respondi acima, pode haver extrema beleza no simples, e o simples envolve as pessoas, alegra e faz sentir bem pela harmonia e consonância quase constantes. E do que mais as pessoas estão precisando senão de harmonia e consonância? É exatamente a mesma coisa, na música e na vida.
Tal conforto é encontrado também muito na música erudita, que tem é fama de ser complexa e difícil de ser digerida. Essa “complexidade” é somente a riqueza de instrumentos, de arranjos, de melodia - diversidade musical menos encontrada no pop.
Mas que, quando é a ele bem aplicada, quando as pessoas ouvem uma clarineta, uma flauta, um oboé numa roda de choro, por exemplo, quando vêem uma orquestra sinfônica junto a uma banda de rock, ou quando presenciam um solo de violoncelo no meio de um pop romântico, toda essa riqueza encanta e provoca um forte impacto.
Cada vez mais os músicos eruditos estão se abrindo ao popular e os músicos pop compreendendo a necessidade do estudo e do conhecimento da música erudita. Vejo que a tendência é uma interação progressiva das duas vertentes. A música tem um poder sob o ser humano muito maior do que ousamos imaginar. E as pessoas, ao se tornarem mais sensíveis e perceptivas, vão aprendendo a escolher melhor e a separar, não o popular do erudito, mas o bom do ruim, a arte do descartável.
♪ Fale sobre a Sara intérprete. Como é para você cantar suas próprias canções? Como se dá o processo de escolha de um repertório de releituras? Qual a diferença mais sensível entre a interpretação das obras de sua autoria e as de outros compositores?
Bom, cantar minhas próprias composições foi, desde o princípio, e ainda é muito difícil, uma constante superação. Componho desde criança, mas o que criava ficava apenas no plano dos sonhos, mesmo que eu gravasse as melodias e letras numa fitinha cassete, mas algo me fazia acreditar que tudo aquilo era uma brincadeira, um grande devaneio, como na verdade era, naquele tempo era.
Mas fui crescendo e aquela sensação não me deixava, eu continuava compondo e escondendo o que compunha, e até o fim da adolescência algumas vivências me bloquearam tanto a ponto de eu tremer e embargar a voz se alguém me propusesse seriamente que cantasse uma de minhas canções; era quase um pânico, a síndrome do pânico de cantar músicas próprias... brincadeiras aparte, era mais que isso, talvez um medo feroz de me expor. E foi só aos 22 anos, vivenciando novas e positivas experiências, que sedeu aquele parto induzido e, de repente, no intervalo de um ano, vi-me cantando minhas músicas em outras cidades, em outro país, com direito a versão em inglês, depois as colocando em um cd e distribuindo livremente entre amigos e familiares, vencendo um festival com uma das minhas canções, (uma das que já estavam esperando na gaveta fazia tempo), ouvindo pedidos para cantar ou repetir qualquer uma de minhas músicas. Assim, muito rápido, tive que me assumir como compositora, o que significou para mim uma realização sem tamanho!
E em meio a todo esse turbilhão de acontecimentos, não tive tempo de aprender a cantar minhas músicas; eu jamais pude supor que era tão difícil cantar minhas próprias músicas, soava-me estranho não ter um referencial externo para me basear na interpretação, o que hoje vejo como um enorme aprendizado, porque foi justamente quando eu parei e me deparei com o seguinte questionamento: Quem sou eu afinal¿ Que voz é a minha ¿ Qual é a minha verdade ao interpretar¿ Além disso é muito mais fácil cantar e reviver o sofrimento, as desilusões, os anseios dos outros artistas; neste aspecto, cantar a própria obra é praticamente se despir diante de uma platéia, o que passei a praticar na marra, sem a preocupação de medir se tal exposição me seria favorável ou não, apenas passei a sentir esta experiência, com extremo amor e prazer!
Descobrir o próprio estilo é um processo delicado e demorado; estou aprendendo até hoje a cantar minhas músicas, e, conseqüentemente, aperfeiçoando minhas interpretações de outros autores.
A escolha do repertório para releituras se dá muito baseado na identificação das verdades, de realidades, de intenções; eu não me sentiria nada bem interpretando uma música que dissesse a favor de qualquer tipo de violência, por exemplo. Agora, independente de letra, costumo me sentir atraída por canções desafiadoras, na melodia, na harmonia, na extensão vocal exigida.
♪ Música e deficiência visual: parceiras antigas na história da música popular, principalmente americana. Na sua opinião, em que uma contribui com a outra? E, dentre grandes artistas cegos, como Diane Schuur, Stevie Wonder, Ray Charles e outros, por que jamais encontramos um grande dançarino ou ator com a mesma peculiaridade?
Há um grande mito em torno desse assunto, acredita-se que toda pessoa com deficiência visual tem grande ouvido musical e, conseqüentemente, aptidão para música. O que acontece é que quando se tem falho um dos sentidos, recorre-se naturalmente a outros, como recursos alternativos; no caso da ausência ou dificuldade da visão, a atenção direcionada aos ouvidos, ao tato e à memória tende a ser bem maior, com isso o indivíduo cego ou com baixa visão aparenta ter uma audição, um tato e uma memória superiores aos dos demais, quando o que houve foi apenas um aproveitamento maior do potencial dessas funções.
E agora é que vem o ponto mais sensível: audição bem desenvolvida, tato bem desenvolvido e memória bem exercitada não representam necessariamente a fórmula ideal para a formação de um bom músico, mas que contribuem muito, contribuem. Já a escolha pela trajetória musical, o talento e a pré-disposição já são outros fatores.
É muito mais difícil sim encontrar pessoas com deficiência visual em modalidades artísticas como o teatro e a dança porque estas requerem um grande aproveitamento estético e postural do corpo, assim como a expressividade corporal, quesitos pouco trabalhados e estimulados neste segmento; movimentos de dança, expressão corporal e facial, trejeitos, gestos, são naturalmente imitados, desde a infância, pelo contato visual, o que torna-se inviável para quem não enxerga. Daí o aprendizado da dança e do teatro para nós, dá-se de outras formas e exige mais estudos e profissionais preparados.
Já na prática da música, nada influi na minha performance vocal ou na execução de um instrumento, a minha deficiência visual. É claro que espera-se de uma intérprete uma boa expressão corporal, e sempre me preocupei com isso, por isso também busquei o teatro e a dança do ventre.
♪ O que significou para você ficar conhecida no Brasil como a garota aventureira do Projeto Percepções?
É, uma referência inusitada pra mim, que nunca tive talento pra esportes, quanto mais para mochileira, aventureira... Mas gosto do “garota aventureira”, porque amei a experiência do Percepções, não só pelos esportes radicais, mas por todos os outros desafios, pela convivência, pelo crescimento, pelos amigos-irmãos que ficaram, pelas descobertas, pela confirmação, para mim, da minha vida aventureira sim. E, ainda mais que isso, foi a realização de um grande sonho que sempre sonhei, em relação à inclusão social, mas nunca soube o formato desse sonho, dessa realização; desde cedo presente nas discussões, discursos e eventos pela inclusão social de pessoas com deficiência, eu sonhava em fazer algo grandioso por esta causa. De repente, eu estava representando todo um segmento, de pessoas com deficiência visual, ao lado de representantes de outras deficiências, numa expedição de 3 meses por 9 países da América do Sul, veiculando para todo o Brasil, em horário nobre, o nosso desejo, nossa necessidade de integração, participação, de oportunidade, de formas divertidas e inusitadas, tentávamos mostrar à sociedade as tantas possibilidades do ser humano de se superar, de se adaptar, de perceber o mundo!
E, quando voltamos, o retorno do povo , dizendo o que tinham aprendido, o que tinham se emocionado, o que tinham repensado, foi nosso mais esperado troféu! Sinto-me extremamente feliz e realizada quando posso, por exemplo, informar as pessoas, servir de incentivo a elas. Se alguém a quem peço ajuda no ponto de ônibus aproveita para me fazer uma bateria de perguntas sobre minha deficiência, não me incomodo; como tudo tem sua razão, alegra-me saber que minha dificuldade, tem como uma de suas funções, a de me tornar um agente disseminador da informação, pois quanto mais pessoas bem informadas neste mundo, sobre como lidar com uma pessoa com deficiência, por exemplo, menor o preconceito e a discriminação, e maior a aceitação das diferenças.
♪ Como você se vê daqui a 20 anos?
Trabalhando muito em tudo que gosto, com um pouco mais de liberdade para criar e transitar pelas modalidades artísticas, e dividindo tudo isso com uma bela família e com os amigos, os que terei cultivado e feito até lá!